Comédia brasileira

Carnaval hein? Dança, aqueles desfiles maravilhosos, tanto brilho, tanta tecnologia, tantas homenagens à pessoas famosas e muito adoradas. De fato o Brasil para tudo para festejar. Dá gosto de ver a alegria do brasileiro, é festa por todo lugar, muitos gostam de dançar, tem show em todo lugar. O samba, axé, pagode são os hinos da alegria, e dão à seus apreciadores um sentimento de satisfação, por fazer tanta gente se mexer e se contagiar com a música.
Mas é tão engraçado que no mesmo país dessa festa é o país em que uma nutricionista faz a chamada do Bolsa Família. Não sei se isso ocorrem em todos os municípios, mas já executei esta tarefa no meu. Nesses momentos conheci alguns brasileiros um pouco diferentes dos que são mostrados na TV durante o carnaval. Crianças magrelas, descalças, mães com um monte de crianças e nem todas tinham blusa de frio para comparecer à tal chamada.
Você pesa, você mede e calcula. E descobre que dos 5 filhos, 3 estão com desnutrição, mas o nome é hipocritamente trocado pela denominação Baixo Peso. Claro, por que falar desnutrição pode ser assustador para uma mãe. Baixo peso dá uma maquiada, até eu me sinto melhor de dar um diagnóstico desses.
Então, com a frase decorada pelo sistema, pateticamente faço escrevo um encaminhamento para que a mãe procure um médico para seus filhos, se possível (o que seria muito melhor), um nutricionista.
Vem cá, que piada é essa? Quando que essa mãe conseguiria consulta pela rede pública com um nutricionista para seus 3 filhos? Ela não tem dinheiro para levar os meninos de ônibus até a clínica que atende à comunidade. Isso é ridículo, não? Mas era esse meu trabalho, entregar o papelzinho de encaminhamento, e depois de findo o serviço, ter certeza de que o Bolsa Família é um programa que tem beneficiado a muitas e muitas famílias nesse país.
E se eu contasse para vocês que essa mãe recebe a bolsa e gasta tudo em bebidas, festa e roupas para ela? Não que a grana seja muita coisa, mas não seria um absurdo? Você se sente revoltado de, na casa dela precisar de leite, pão, arroz, feijão e carne, e os meninos só comerem na creche pois ela gasta tudo com essas “futilidades”?
Este último parágrafo foi apenas uma suposição, eu nem sei o que a tal mãe faz com o dinheiro. Porém, isso seria muito revoltante, não seria? Ou você riria e dançaria com ela nas festas, sabendo que seus filhos não conseguem dormir de fome?

Da mesma forma, eu não rio para um Brasil que gasta com Carnaval, eu não me alegrei pelo nosso país sediar a Copa e as Olimpíadas. Rir e se alegrar disso é a mesma coisa de aplaudir uma mãe que nesciamente destratasse os seus filhos. Se isso lhe incomoda, como festejar, se emocionar e vibrar com essas “vitórias”? Não acho que é vitória pular, rir e aparecer na TV enquanto as pessoas passam fome, sem cuidados, sem atendimento, com filas sem fim para consultas que deveriam ser urgentes?
Isso incomoda você? Eu não sei se isso faz o seu sangue borbulhar por suas artérias e querer explodir. Ou se pelo menos a sua educação não lhe ensinou que a gente só gasta à vontade e faz mimos com o que sobra, para sempre garantir que o que é essencial nunca falte.
Este post não é uma crítica direcionada ao Programa Bolsa Família, e sim à alegria de cada brasileiro que canta e dança e ignora a realidade de seu país dia a dia.
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4 comentários sobre “Comédia brasileira

  1. O mundo sempre gira, gira, gira…

    As alegrias que jorram nesta época do ano, sempre habilmente maquiladas pela obrigação de sorrir ou legitimadas pelas escravidões de vários níveis a que somos submetidos ao longo do ano.

    Escravizados para manter a falsa seriedade e comprometimento, sorrir forçosamente numa época conveniente e lucratriva para os artífices do dinheiro.

    Novos e péssimos e gulosos valores são sempre despejados nas TVs, nas novelas, nos comerciais; ser a artista da moda, imitar seu penteado, sua bunda, seus trejeitos; ao vivo são como qualquer outro ser humano, gordas e espinhentas, mas ainda assim temos de tentar imitá-las, nesta era de glamours fedorentos e insossos.

    Vem brincar com a gente, vamos beber e nos divertit, vem brincar com a gente.

    Venha esquecer as outras realidades ao nosso redor.

    Eu não conheço, não sei dessa senhora de 5 filhos, não falarei sobre ela. Não mostrarei falsa indignação quando estou aqui bem nutrido diante meu notebook. Não me cabe determinar, categoricamente, se ela gastará tudo em bebidas.

    O mundo gira, gira, gira; nunca parará de girar.

  2. Eu fiquei feliz com a minha cidade ser uma das sedes da Copa pq só assim investimentos em infra-estrutura que são urgentes poderão ser realizados, mas eu não me iludo, sei que metade (sendo boazinha) desses recursos serão desviados, obras serão porcamente feitas, tudo pra maquiagem da Copa, do país mais festeiro do mundo. Mas aqui as coisas só acontecem movidas a interesse político… e o Carnaval? “-Ahh, deixa o povo encher a cara e se matar nas estradas, ao menos eles ficarão felizes e votarão em nós mais uma vez, seguindo aquela linha 'intelectual' de raciocínio!”

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