Drama da saúde brasileira

Levantemo-nos de nossos assentos e vamos aplaudir os últimos espetáculos e vamos rir também da comédia brasileira, pois as notícias mais tristes de repercussão nacional das últimas semanas foram: enfermeira decepa dedo de uma criança, enfermeira injeta vaselina na veia de uma criança e enfermeira injeta leite na veia de uma criança (quem encontrar link, poste nos comentários, pls). (Uma dúvida, eram todas enfermeiras mesmo? As reportagens dizem que sim, mas estou na dúvida).
‘Bora ficar famosos e vamos ver quem será mais original! Será que se você injetar azul de metileno em alguma criança e deixar ela roxa ou azulada não será mais bacana? Ah, mas não sem sofrer algum dano, portanto além de injetar azul de metileno, a próxima a ficar famosa, faça isso enquanto decepa algum membro da criança. E que seja criança com síndrome de Down, filha de mãe cega que não poderia fazer nada além de ir à TV aberta chorar pelo abuso dos danos causados.
Ou já que não somos enfermeiros, auxiliares de enfermagem ou técnicos de enfermagem, que tal nos reunirmos na porta de uma das criminosas e implorar por justiça, tal qual foi feito com Jean Calas?

Se Voltaire fosse vivo, eu pediria parceria para o blog dele!

Se você não entendeu que tudo era ironia, recomece a ler este post, por favor.

A grande questão é que, após anos de faculdade, estágios e tudo o mais, os profissionais de saúde tem que trabalhar 48 horas por dia (isso mesmo), se quiserem conseguir algo nesta vida. Os salários de muitos concursos são uma tremenda piada, como um edital que eu encontrei cujo salário da nutricionista seria de R$ 500,00. Para você conseguir pelo menos pagar as contas, no começo da carreira tem que trabalhar pra caramba. Ou se você não arranjar algum lugar muito bom para trabalhar, você vai trabalhar como o cão a vida inteira. E acredite, trabalhar sem dormir, trabalhar sem ter feito uma refeição decente, etc etc não é uma “fase”, é um estilo de vida.
Eu mesma conheço uma enfermeira que trabalha em 3 lugares, portanto, nos 3 turnos. Fale para ela assim como para as pessoas que tentam acumular cargos públicos: não faça isso. Seria a mesma coisa que falar para um pai de família: não faça as compras no supermercado neste mês, isso é bobagem.

Bom, não estou aqui para falar que foi bem feito, afinal, os danos causados às crianças são irreversíveis e não há indenização ou penalização que seja capaz de trazer de volta à essas famíilas a vida que elas tinham antes dos infortúnios causados por estes profissionais de saúde. Estou aqui apenas para falar que, se existe alguém para quem você deve apontar o seu dedo, este alguém não é a sra Maria Fulana, enfermeira, que trabalha em 3 turnos, e que cometeu um acidente. Este alguém são as leis, regulamentos, instruções e normas que regem este país e que faz as coisas serem como elas são atualmente. Este alguém tem nome, se chama Estado, e ele é representado por alguém que pode dominá-lo e tem o poder de lhe dar uma melhor forma (ou não), que é o Governo.

A sra Maria Fulana, enfermeira, que trabalha 3 turnos, e que injetou vaselina na veia de uma criança, pode ser que morra atropelada daqui 3 anos, ou que viva até os 80 anos. Mas ficar revoltado contra ela não muda nada, pois uma hora ela vai embora, pois todos nós homens sempre iremos embora uma hora ou outra, mas o que permanece e o que causa efeito e muda a vida das pessoas todos os dias é o que está escrito, e o que está escrito permanecerá escrito e continuará a ser praticado (ou desvirtuado por meio das brechas da lei) enquanto não se levantarem forças para modificá-lo.

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6 comentários sobre “Drama da saúde brasileira

  1. “Vamos falar de coisa boa? Vamos falar de iogurteira Top Therm!”… Não, vamos falar que, além dos profissionais serem mal pagos e terem que dobrar (ou triplicar) turnos para poderem ter uma vida decente, tem o desvio de verba pública que deveria comprar material/medicamento/treinamento adequados mas não compra, deveria manter o quadro de pessoal completo mas não mantém, deveria oferecer leitos suficientes para a demanda da região…
    Pois é, Jess, eu dou plantão num hospital público (HC da vida) e vejo isso todos os dias. Já cheguei no ponto onde me pergunto: “Como será que este tipo de coisa não aparece na mídia com mais frequência?”

    Bem… voltando à iogurteira… =D

  2. Mais um bom post Jess, reflete bem o que acontece. É muito fácil culpar uma enfermeira ou um policial por seus erros e esquecer que esses profissionais não erram sozinhos.

    Eu lembro bem da guerra no Iraque onde um militar de um helicóptero atirou em um repórter que segurava uma câmera pq achou que era lança mísseis. Pra início de conversa, o qq os EUA ainda faziam no Iraque? Nem deviam ter entrado lá mas se entraram, se aceitaram o estado de guerra é preciso saber que civis vão morrer. Não estou dizendo que o militar não cometeu um erro mas me coloco no lugar dele e se eu visse um possível inimigo com uma coisa que parece ser um lança míssel, em uma zona de conflito, eu atiro primeiro e pergunto depois. Ninguém quer morrer e ele tem apenas uns segundos pra tomar uma decisão que pode significar a vida ou a morte dele.

    A enfermeira da vaselina não errou sozinha e mesmo que ela não estivesse cansada, o erro apenas terminou com ela mas começou muito antes. Não adianta agora trata-la como uma assassina e nem seria justo deixar esse assunto quieto afinal, quem escolhe uma profissão como essa conhece os riscos.

    Obs.: Cuidado Jess.. nao vá matar ninguém envenenado.

  3. Oi Jess! Vou deixar meu comentário aquo tb.
    1º, até onde eu sei, eram todos auxiliares de enfermagem.
    O que vc comentou da sobrecarga de trabalho, é indiscutível, é grande fator que contribui para o erro. O duro é que essas colegas foram infelizes em cometer erros graves e parar na mídia. Como se fosse só “as enfermeiras” que erram, tb.
    Não defendo o erro, mas entendo a situação delas e fico indignada quando o jornalismo ruim atual coloca a população inteira contra o serviço de saúde pública, e especialmente contra os profissionais da saúde (leia-se, enfermagem. Médicos, jamais). Eu trabalho de perto com isso e afirmo que é impossível generalizar. Existem hospitais e hospitais, rotinas e rotinas, profissionais e profissionais.

  4. Faltou-me dizer que, em vez de leite, foi oxigênio que uma auxiliar de enfermagem injetou na veia.
    E, azul de metileno pode ser injetado na veia sim, já vi ser usado, só tem que ser estéril e não sei se pode ser usado em criança =) . Indicado para metemoglobinemia (saiba mais no wikipedia hoho).

  5. Parabéns Jess, muito bom o post!

    O erro foi concretizado pelas mãos da enfermeira ou auxiliar de enfermagem, o causador ou no minimo não-solucionador do erro é sem sombra de dúvidas o Estado. Mas a mídia também tem sua parcela de culpa na minha opnião, pois há várias reportagens mostrando os erros cometidos, os devios de verbas…Isso acaba desprestigiando os profissionais dessa área que deveriam ser reverenciados, afinal são heróis. Mas não há reportagens mostrando esse lado indigno da profissão, afinal 500,00 reais o salario de um nutricionista é ridiculo…

    O que falta ao Brasil é valorizar os profissionias que devotam suas vidas para salvar a dos outros…

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