A música que você ouve não te define.

Que tipo de música você ouve? Este é o tipo de pergunta que gera um oceano de informações e por mais que você tente ser completo ao fornecê-las, você sempre acaba esquecendo de alguma coisa.
Fonte.
A música nada mais é do que uma expressão da alma através de melodia (e harmonia e ritmo? Não estudo/estudei música, apenas quero que entendam o que eu digo, ok?) e letra, o que acaba mexendo de maneira mais forte com a nossa alma do que um livro, por exemplo. Isso porque um livro demora muito mais que 3 minutos para transformar uma mente, enquanto uma música não transforma, mas comove seu ouvinte em 3 minutos ou menos (ou em 10 minutos, se você for da galera do metauuuuuu). Se alguém aparecer me falando que metal é com L…ah…

Uma coisa que eu sempre achei curiosa e acho digna de nota é a maneira como é visto o compositor e o intérprete da música. Pode ser limitado da minha parte, mas há quem concorde comigo que, um músico, não é músico completamente se não conseguir concluir as duas formas de representação desta arte: letra e melodia. Se você só compõe, você é um poeta. Se além de compor, você interpreta (mesmo que não seja cantando), você é completo. Se você apenas interpreta, ou você é um fantoche do mundo das gravadoras (OI SANDY, um abraço pra você, querida!) ou você é um excelente nadador, mas que só tem uma perna (e claro, nadaria muito mais se tivesse as duas).

Acho que é muito fácil interpretar uma música, você pode não ter uma voz diferente e intensa como a da Adele, mas você pode cantar as músicas dela e colocar no youtube. E sabe o que diferencia você dela? Ela não vive de cover, ela não é lua, não precisa luz alheia. Eis então o meu ponto sobre o assunto: compositor e cantor. 

Bom, definidas algumas coisas sobre música, intérpretes e compositores, vamos falar um pouco sobre personalidade musical. A personalidade musical nada mais é que um termo que acabei de inventar, que demonstra o tipo de música com a qual a sua personalidade se identifica. Para a sua surpresa, o que você ouvia quando era apenas um bebê ajudou a modelar o seu gosto musical. E se você foi criado a base de Bach e Chopin, talvez seu ouvido sangre quando toca aquele pancadão (ai que vergonha de usar esta palavra aqui!). A personalidade musical tem a ver também com aquele papo de “esta música é a minha história!” e “esta música foi feita pra mim!”, e como eu disse anteriormente, é muito bom ter esta identificação miojo: em 3 minutos você conseguiu uma filosofia de vida e isso sem ter que se mexer, sem ter que ler, sem esforço algum! A única coisa mais fácil que isso é dormir! Mas é claro, para algumas pessoas dormir não é uma tarefa simples…

A questão é que, aquela letra é a filosofia, o extrato, a geléia real de… quem a compôs! E apenas isso. É adorável rolar uma identificação com a música, principalmente quando ela é divertida e anima o seu dia, mas identificação é igual a cor favorita: é algo que você curtiu, mas não define quem você é. Você não é o que você ouve, o tênis que você usa, a cor de cabelo que você tem ou então a tatuagem do Supremo Senhor Kaiô que você fez na testa. Você gosta destas coisas e todas elas fazem parte do seu dia, mas Kurt Cobain foi uma pessoa e você é outra, o que definiu ele foram as atitudes dele e o que te define não é o suicídio de Cobain, não é o que você tem ou o que você fala, mas o que você faz.

Eu creio ser possível ter um relacionamento com alguém de gosto musical diferente (até porque só gays gostam de tudo o que eu ouço), pois em uma sociedade com internet, em que você curte aquela bandinha da Ucrânia e ao mesmo tempo não perde o gingado quando toca qualquer música do Calypso, não é estranho encontrar alguém igualmente interessante, com quem você não compartilhe uma só interseção musical. Se nos anos 1990 você só poderia curtir rock americano ou ser fã das baladas dos anos 1980, ou então ter Legião Urbana (ui!) na veia, hoje as coisas são muito diferentes e você ocupa vários lugares e pode ser amigo de pessoas que também possuem uma diversidade em seu gosto musical.
Isso me fez lembrar que na minha adolescência era comum querer ser amigo de quem curtia o mesmo estilo musical: ouve Linkin Park? Eu também! Amigos para sempre! OH WAIT… isso não quer dizer nada, absolutamente nada! Tanto a definição de quem você é quanto a de quem seus amigos são, vão muito além de gostos musicais…
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12 comentários sobre “A música que você ouve não te define.

  1. ótimo texto! Concordo com isso em diversos níveis.
    As melhores pessoas que conheci não curtem as mesmas coisas que eu e costumo não gostar muito de quem ouve as mesmas coisas.
    Quanto a música definir uma pessoa, concordo que isso não condiz com a realidade: uma música pode ser identificada como semelhante a um momento, mas NUNCA uma música (ou mesmo uma discografia completa) poderá definir a complexidade de uma pessoa, seja ela o autor das mesmas ou (menos ainda) um fã.

  2. Jess, esta relação compositor/interprete é um pouco mais complexa. Não sou nenhum expert (em nada, a não ser cinismo e sarcasmo, se é que contam…) mas vou tentar jogar umas folhas na discussão para tentar mostrar o ponto, apesar da limitação técnica (da conversação realizada na internet em textos dispersos).

    Vou começar com o exemplo: “… para se fazer um samba bom é preciso um bocado de tristeza…” Este trecho mostra uma coisa, para compor, são só um bom samba, como também um bom poema ou um bom rock, o compositor precisa mergulhar naquelas emoções que ele vai utilizar para conduzir a composição. Isso não é acidental, não é “dom divino”, nada disso, é pura reflexão e imersão com o propósito de criação. Usando o exemplo do samba, é como você se encharcar de tristeza para começar a primeira linha da composição. Ou, se encharcar de “rebeldia-construtiva-política” para começar a primeira linha do rock que você irá compor.

    Já a interpretação requer uma imersão mais sóbria e diferenciada. Por exemplo, imagine uma pessoa encharcada de tristeza tentando cantar! Muito provavelmente a voz ficaria embargada e faltaria o tempo todo. Interpretar nesta questão é absorver da música a “energia” que ela transpassa e não a energia que o compositor se valeu para construíla. E isso é complicado, é um processo meio duro. Geralmente somos conduzidos a pensar que pode ser mais fácil interpretar por estarmos o tempo todo ouvindo pessoas que não interpretam a música. A maioria dos cantores por ai apenas aprendem e treinam um pouco de técnica vocal e acham que isso é interpretar. Achamos que interpretar é mais fácil pois não vemos mais atrizes, não vemos mais intérpretes de música. Vemos só estas pessoas que vendem, como Sandy, Roberto Carlos, duplas sertanejas, e estes “pops” da vida que na verdade, nem cantar (em termos de técnica vocal) sabem. Mas interpretar, ser um interprete, vai além disso. E pode ser mais visível especialmente em umas boas interpretes de ópera (tem um vídeo que poderia mostrar bem isso, bem claramente, de uma cantora de ópera, e assim que eu me lembrar onde eu posto para você conferir)

    Mas enfim, concluindo, em alguns aspectos eu discordo de você quanto à afirmação do título. A meu ver a música define sim uma pessoa. Simplesmente pois, o conjunto de gostos de uma pessoa é uma das coisas que mais a define. Agora, definir uma pessoa não é limita-la. As pessoas mudam, gostos podem mudar. O que há de estudos nesta área, que sei, é que as mentes mais inteligentes tendem a gostar de ritmos mais elaborados, o que é óbvio já que neste sentido a inteligência mostra que a pessoa gosta do que compreende. Tem muitas pessoas que gostam de coisas que não compreendem ou não pretendem compreender, damos a isso o nome de moda e é sempre um horror! E de toda forma voltaria a ser um definidor de personalidade.

  3. Especificamente sobre a tirinha, os quatro casos mostram o que falei sobre moda, que é o gosto sem a compreensão daquilo que se gosta, ou do motivo pelo qual se gosta. Nos quatro casos as pessoas são definidas pelas músicas por suporem que elas são algo que elas querem ser. Exatamente como no último quadrinho. Mas isso mostra o inverso do título da postagem, ou seja, pessoas se definindo pela música e não, o gosto musical definindo uma pessoa com base nas suas escolhas. :c)

  4. Caro Oficial,

    Embora morra de vontade, não vou tentar te convencer de que estou certa, cada um vê as coisas como quer e de quando em vez a diversidade de ótica é que torna as discussões edificantes.

    Mas não posso deixar de dar uma ressalva para “rebeldia-construtiva-política” necessária para compor um rock. Você acha mesmo que é disso que é feito o rock? IMHO, rock é um ritmo feito por gente que não cresceu para pessoas no ápice da puberdade e das revoltas do “não-pedi-para-nascer feelings”. Infelizmente acho que as pessoas que estão fazendo algo de construtivo, seja nas artes ou seja na política, estão alcançando pelo menos uma camada que faça parte da população economicamente ativa. Ou então, estas pessoas estão instruindo as crianças a serem melhores do que um grupo de filhinhos de papai que querem expulsar a polícia da universidade para usar drogas.

  5. Não é questão de achar, Jess, é questão de conhecer o que é rock. Um ritmo que, há muitas décadas não é recriado. Quando falo desta “rebeldia-política-construtiva” eu falo, por exemplo, do fim da década de 60 e década de 70 onde muito jovens que viviam em um contexto completamente diferente, em termos de cultura e liberdade, utilizaram da música e desta “rebeldia-política-construtiva” para modificar o cenário de repressão existente, tanto por parte dos pais (ou a cultura) quanto por parte da política. Vou citar como exemplo o álbum The Wall do Pink Floyd cuja toda composição alerta e busca um novo foco sobre a postura ditatorial (não só política mas sócio-cultural) e dentro desta crítica vem tentar fazer com que as pessoas reflitam e modifiquem este cenário. Há uns meses eu li uma matéria onde o Roger Walters elogiou a postura de manifestantes políticos, de um dos países da África que modificaram a letra de uma de suas músicas a tornando contextualizada para os problemas locais em busca de com isso jogar um luz e promover debates na área da liberdade social. É disso que eu falo quando cito o rock.

    Atualmente, no Brasil, o contexto é outro. Possuímos liberdade política, possuímos relativa liberdade sócio-cultural, que em muitos aspectos foram conseguidas em função de manifestações que começaram lá em 60. Então, como você citou o exemplo destes criminosos lá da USP, e o que eles são é criminosos, o que há ali é o que você disse de fato, jovens de classe abastada que querem se drogar na faculdade e para isso não querem a polícia por lá. E isso é uma atitude criminosa que não propicia nenhum tipo de debate produtivo. Mas isso da USP não tem relação com o rock, nem com rebeldia, e nem mesmo com a manifestação pela liberdade. Isso da USP é mesmo só uma atitude criminosa praticada por pessoas que possuem na sua cultura pessoal o princípio da impunidade.

    E de fato, o que é produtivo é a discórdia e não o oposto :cP

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